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terça-feira, 24 de maio de 2011

Classicismo - Luís Vaz de Camões

Introdução

A Idade Média passa a viver a dualidade das visões teocêntrica (ainda predominante até o Renascentismo) e antropocêntrica. Esse conflito propiciará grandes e profundas mudanças em Portugal. Até que, finalmente, o Renascimento traz as novas tendências do pensamento humano.
Essas tendências exaltarão a razão e serão manifestadas brilhantemente por Luís Vaz de Camões em suas obras, assim como outros escritores. Surge, neste cenário, o Classicismo.

Classicismo

Contexto Histórico

Grande foi a contribuição do Humanismo na história mundial. A partir do momento em que a visão teocêntrica passa a ser questionada pelo ideário humano, as questões ligadas ao pensamento, à filosofia e às ciências passam a alcançar grande destaque no cenário global. Ainda que no Humanismo a cisão antropocêntrica tenha sido contemporânea à visão teocêntrica, ambas se contrastaram e, mais tarde, geraram ao Homem uma nova forma de ver suas necessidades e suas maneiras de enxergar o mundo (perpetuando-se essa maneira até os dias de hoje).
O Classicismo surge num momento de grandes transformações. A cultura da época, muito influenciada pela Igreja, assistiu a momentos árduos de grande perseguição a diversas pessoas que não professavam a fé cristã. Mas as perseguições não se davam simplesmente a pessoas que não professavam tal fé. Muitos pensadores foram marginalizados pela visão imposta pela Santa Inquisição: a pesquisa à anatomia humana, por exemplo, fora proibida porque o corpo se tratava como morada divina, entendendo-se, pois, que ao homem não competia abrir e vasculhar o que quer que fosse, mesmo que para fins científicos (é interessante ressaltar que a Europa foi varrida por doenças, sobretudo a peste negra neste período).
Com as tendências antropocêntricas alcançando escalas mais notáveis, a Europa passa a viver um novo marco histórico. A ciência, a arte e a filosofia passam a ganhar o centro das questões e das ideias. Isso corroborou para a expansão marítima, que trouxe um momento glorioso a Portugal. Com essa nova realidade, as terras lusitanas encontram a ostentação da glória, pois Portugal passa a ser o coração ou a potência do mundo, uma vez que dominou a tecnologia para as viagens ultramarinas.
Passados alguns acontecimentos, dentre os quais, o “descobrimento” do Brasil, surge em Portugal, em 1527, o Classicismo, cujo maior nome é Camões. Esse movimento surge quando Sá de Miranda retorna a Portugal da Itália, e de lá traz as novas tendências estéticas da literatura: versos decassílabos, soneto, ode, écloga, elegia, epístola.

Luis Vaz de Camões

Camões é um dos maiores nomes da Literatura Portuguesa, sem nenhuma sombra de dúvida, porém sua história ainda é um grande mistério. Sabe-se muito pouco de sua história. Contudo, dois livros trazem um pouco da história desse grande escritor: Erros meus, má fortuna, amor ardente, escrito por Natália Corrêa, que traz a história do Camões homem, sua história (ou provável história); e Que farei com este livro? de José Saramago – trazendo a história de Camões sob uma perspectiva à luz da obra camoniana, estabelecendo uma relação entre a obra e o autor.

A Obra Camoniana – Os Lusíadas

Sem dúvidas, a maior obra de Camões foi Os Lusíadas, livro que narra as glórias portuguesas, tendo como herói Vasco da Gama. Esta obra é marcada, no ponto de vista linguístico, por versos decassílabos – versos compostos por dez sílabas poéticas – e um esquema de rima cujo padrão é ABABABCC.
O diferencial desta obra não se deu apenas por essas marcas e por contar as histórias gloriosas de Portugal. O que torna essa obra tão intrigante é a forma como Camões mostra essa história. Tendo como base a literatura clássica, o célebre autor faz uso de figuras míticas, mas não se atém em apenas repetir ou copiar, como muitos autores da época fizeram. Camões traz essas figuras míticas com as características lusitanas (as ninfas do Tejo).
Além disso, Camões traz, em Os Lusíadas, outra curiosidade: a dualidade entre a lírica e a épica camoniana. Ele conseguiu, como poucos, essa marca. Ele consegue trazer a lírica por meio dos padrões de rimas, pela organização das estrofes. Quanto à épica, Camões escreveu um épico: o herói, Vasco da Gama, luta com as figuras míticas de Portugal, enfrenta os medos e, por fim, encontra regozijo e glória, a glória portuguesa.

A lírica camoniana

Camões escreveu sua obra lírica em duas formas: com o uso da medida nova e com o uso da medida velha. Contudo, o que mais se evidenciou foi o uso de sonetos, de maneira que esta é a forma mais difundida de sua obra (é aqui que se observa o ponto mais alto da obra camoniana).
É por meio da lírica camoniana que se observa o amor platônico, tão bem expresso por Camões, sendo este um reflexo de sua vida em suas obras (lembrando da grande influência das obras clássicas sobre a lírica e a épica camoniana). Contudo, esse platonismo ainda está controlado sob a ótica aristotélica, ou seja, sob a ótica racionalizada desse amor (neoplatonismo). Esse amor não está no campo sentimental, mas sim no campo das ideias. O amor não correspondido causa a frustração amorosa. Veja:

Dai-me a Lei, Senhora, de querer-vos
Que a guarde, sob pena de enojar-vos
Que a fé que me obriga a tanto amar-vos
Fará que fique em lei de obedecer-vos.

Tudo me defendei, senão só ver-vos
E dentro na minha alma contemplar-vos;
Que, se assim não chegar a contemplar-vos;
Ao menos que não chegue a aborrecer-vos.

E, se essa condição cruel e esquiva
Que me deis lei de vida não consente,
Daí-ma, Senhora, já, seja de morte.

Se nem essa me dais, é bem que viva,
Sem saber como vivo tristemente,
Mas contente porém de minha sorte.
(Editora COC, 2009)

No excerto acima é possível se perceber essa frustração do poeta.
A frustração da expressão amorosa, no lirismo camoniano, também inclui o lamento do amor perdido em circunstâncias trágicas da vida. Dessa forma, a morte será outro elemento muitas vezes associado à figura da mulher amada. Uma das lendas construídas em torno de Camões consagrou a versão, segundo a qual boa parte dos poemas líricos, com referências à morte, foi inspirada em um episódio verdadeiro da vida do poeta, que teria, que teria perdido a amada Dinamene em um naufrágio na China.
(Editora COC, 2009)

Ah! minha DInamene! assim deixaste
Quem nunca deixara nunca de querer-te!
Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te
Tão asinha esta vida desprezaste!

Como já para sempre te apartaste
De quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?
(Editora COC, 2009)

Apesar de seus sentimentos serem mostrados e demonstrados por sua lírica, não se pode afirmar categoricamente que essa lírica tenha as mesmas características observadas no Romantismo. Isso ocorre porque o Romantismo é um movimento cujo foco está no egocentrismo, ao contrário do que ocorre no Classicismo, cujo foco está na razão, no conhecimento, na racionalidade.


Épica camoniana

Basicamente, Os Lusíadas é a obra que traz o épico ao rol de Camões. Nesta obra, Camões elege Vasco da Gama como herói de sua obra, exaltando sua coragem e inteligência nos momentos mais fortes e necessários da obra. Vasco, por sua vez, é um símbolo, pois representa o povo português (até porque a obra traz as glórias de Portugal). E, nessa representação, Camões traz as conquistas do império lusitano, conseguidos pelo domínio da tecnologia ultramarina. Ainda é importantíssimo ressaltar que Os Lusíadas mostra o plano terreno e o plano mítico:

                       I.      Plano terreno
O plano terreno é mostrado pelas viagens feitas por este herói. Todos os percalços e todos os relatos históricos são delineados nas linhas de Os Lusíadas. A obra é baseada em contextos históricos reais, ou seja, Camões se utiliza de episódios reais para desenrolar toda a narrativa épica.

                      II.      Plano mítico
Neste plano, Camões enfoca os deuses do Olimpo e até que ponto sua interferência poderia ser preocupante ou não no sucesso dos empreendimentos dos portugueses.
Mas, de uma certa maneira, Camões consegue superar os limites impostos pela literatura clássica, emulando-a e extrapolando-a, pois é criador de figuras míticas portuguesas, como é o caso das ninfas do Tejo.

Como em todo épico, a célebre autor lusitano divide a obra (composta por 8116 versos decassílabos) em:

Proposição na qual Camões revela suas aspirações e propósitos, além do quê irá tratar na obra;
Invocação – nesta parte, há o pedido de ajuda e inspiração para as ninfas do Tejo (Tágides);
Narração – é a história da viagem, com todos os desafios enfrentados pelo herói;
Epílogo – aqui é possível ver o sentimento do autor perante toda a viagem e o cenário futuro, no qual, Camões, prediz o futuro tenebroso de Portugal, exortando a D. Sebastião a continuar com a expansão marítima, de sorte que as glórias de Portugal continuem a crescer.

Episódios

São quatro os mais importantes da obra (e talvez os mais conhecidos):
                       I.      Inês de Castro
Neste episódio, há a triste história de amor entre Inês e D. Pedro. Ele, príncipe, ela, sua amante. Considerando a origem de Inês, o Rei D. Afonso IV manda que matem Inês.
Este episódio é narrado por Vasco da Gama ao rei de Melinde.

                      II.      Velho do Restelo
O Velho do Restelo é um episódio um tanto intrigante. Neste episódio, um velho chega à praia de onde Vasco da Gama está saindo, ainda em Portugal, no qual há uma certa preocupação com o que vai acontecer e com os reais objetivos dessa viagem.
Segundo Massaud Moisés, neste trecho, é possível se ver a voz de Camões. É como se a voz desse velho fosse a voz do autor, pedindo cautela nessa jornada cheia de perigos.

                    III.      Gigante Adamastor
É um dos episódios mais marcantes, no qual, o Gigante, é transformado numa longa parede de pedra por amar uma figura mítica. Neste trecho se percebe o platonismo existente em Os Lusíadas. E, metaforicamente, mostra a coragem do povo português em desbravar as mais tenebrosas e complexas situações, superando os obstáculos marítimos.

                    IV.      Ilha dos Amores
É a premiação por tantos empreendimentos e lutas. Depois de episódios em que se colocou a vida em risco por amor à pátria, há a recompensa suprema do herói. O prêmio: uma ilha repleta de ninfas belíssimas, um presente dos deuses pela coragem.

Considerações finais

Grandes são os feitos desse momento na literatura. O Renascentismo traz consigo novas maneiras de se enxergar a vida. Novas expectativas e nova visão permeiam o ideário do povo português, de sorte que isso se refletirá no campo cultural, sociológico e cultural.
Camões, um dos grandes gênios da literatura mundial, fez com que a língua portuguesa alcançasse patamares nunca antes visto. Em Os Lusíadas, sua maneira ímpar de escrever mostrou ao mundo as glórias e o orgulho de Portugal. Ele, como poucos, conseguiu trazer uma dualidade poética entre o lirismo poético e o épico, o que se observa em sua maior e mais difundida obra.
O lirismo camoniano ainda é bem diferente da lírica a que estamos acostumados, em que é possível se observar o ego, característica que somente será fundamentada no Romantismo. Esse lirismo é, sem sombra de dúvidas, racionalizado e consistente, de sorte que nenhum outro autor conseguiu repetir isso. Quanto à épica, não sobram mais adjetivos para descrever como ele o fez, não apenas copiando, mas inovando sempre (a saber, a criação de figuras míticas, por exemplo).
Em resumo, a obra camoniana ainda, por mais estudos que se tenha registro, será sempre um mistério a ser desvendado por aqueles que verdadeiramente primam por sua forma de escrever; e uma coisa é certa: ainda há mais mistérios nas obras camonianas do que nossas vãs filosofias podem presumir (parafraseando William Shakespeare).


Bibliografia

Editora COC. (2009). Língua Portuguesa 3 - Literatura Colonial. Ribeirão Preto: COC.

Moisés, M. (2006). A Literatura Portuguesa (34ª ed. ed.). São Paulo: Cultrix.

Moisés, M. (1972). A Literatura Portuguesa Através dos Textos (5ª ed.). São Paulo: Cultrix.




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