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terça-feira, 24 de maio de 2011

Humanismo e o Teatro de Gil Vicente

Introdução

A Idade Média passa a viver a dualidade das visões teocêntrica (ainda predominante até o Renascentismo) e antropocêntrica. Esse conflito propiciará grandes e profundas mudanças em Portugal.
O teatro de Gil Vicente trará mais do que narrativas simples, mas mostrará essa dualidade vivenciada pelos portugueses dessa época. Ele, por sua vez, evidencia alguns questionamentos que faz, colocando em xeque muitas das idéias defendidas até então pela cultura da época. É o surgimento da visão humana, na qual o Homem passa a ser o centro. Em outras palavras, o Humanismo.

Humanismo

O início do Humanismo se dá quando Fernão Lopes é nomeado Guarda-Mor da Torre do Tombo em 1418, por D. Duarte. Portugal, como as demais localidades da época, passa a viver intensas mudanças culturais, além das sociais.
Historicamente, o Humanismo se vê rodeado pela Revolução Popular (1383), quando D. Fernando morre e sua mulher, D. Leonor Teles, instaura um governo dúbio, no qual tenta fazer de Portugal um reino dirigido pela coroa espanhola. Ela, assim, mancomuna-se com o Conde Andeiro nessa tentativa de integrar Portugal à coroa espanhola, mas isso fracassa, pois os portugueses, liderados pelo Mestre de Avis, rebelam-se contra a rainha. Depois de dois anos, a revolução termina e o Mestre de Avis se apodera do trono. Tem aí o início da dinastia Avis em Portugal, tornando-se Mestre Avis em D. Pedro I.
Portugal experimenta, assim, as benesses de ter um rei culto, empreendedor, determinado, e, com isso, uma profunda renovação cultural no país.
Graças a esse cenário, os lusitanos passam a viver processos mais humanizados da cultura; em outras palavras, surge a visão antropocêntrica, que será contrastada à visão predominante à época (a visão teocêntrica).

É certo que a visão teocêntrica de vida, isto é, tendo Deus como escala de valores, continua vigente, mas já começam a despontar atitudes contraditórias diretamente centradas no homem. Contribui para isso a euforia provocada pelas descobertas e pelas conquistas ultramarinas, iniciadas com a tomada de Ceuta em 1415 e só terminadas no século seguinte.
(Moisés, A Literatura Portuguesa, 2006)

Esta atitude de pôr o homem no centro será de grande valor aos movimentos vindouros, mas, no Humanismo, será de grande contribuição às críticas de Gil Vicente, pois ele colocará as ideias contidas no ideário e cultura portugueses pontos conflitantes, de sorte que trará, ao menos, alguns questionamentos sobre os regimes da época.

Gil Vicente

Não se sabe com exatidão as datas de nascimento e morte de Gil Vicente; assim, presume-se que o autor e dramaturgo português tenha nascido entre 1465 e 1466 e morrido entre os anos de 1536 e 1540. Pouco se sabe sobre sua vida, mas o que se tem registro é que tenha sido funcionário da Coroa.
Escreveu diversas obras, dentre as mais populares, a Trilogia das Barcas, traz sua obra mais difundida nos estudos literários brasileiros: O Auto da Barca do Inferno.
Mesmo sendo cristão, não se deteve em mostrar pontos que considerava negativos, muitas vezes satirizando-os ou simplesmente criticando-os.

O Teatro Popular de Gil Vicente

Antes de tudo, para se falar em teatro popular, algo deve ser bem elucidado. Quando se fala em teatro popular, vem-nos à mente a ideia de que seja um teatro aberto ao público, no qual todos podem ter acesso. Mas essa premissa deve ser revogada, pois, mesmo nos dias de hoje, o teatro ainda é muito elitizado. Ao se tratar do Tetro Popular de Gil Vicente, deve-se saber que esse popular se deu não pela assistência do público, mas sim pela temática existente nas narrativas/peças teatrais; a linguagem, assim como os aspectos temáticos, trazia algo mais popular, embora as peças fossem apresentadas à corte portuguesa.
Como o tema era via condutora do teatro popular, Gil Vicente inova com seu conteúdo. Ele passa, por meio do riso, a trazer as mazelas sociais vividas por seus patrícios, como forma de criticar. Ele, mesmo sendo freqüentador da corte, conseguiu perceber tais problemas, evidenciando-os. Com isso, ele demonstrou de forma impressionante a sociedade de seu tempo, sempre com uma atitude crítica muito bem delineada.
Engana-se quem pensa que Gil Vicente detinha-se em apenas colocar como alvo de suas críticas as mazelas sociais vividas pelos portugueses. Ele ainda inseria em suas obras aspectos religiosos que ele enxergava como negativos. Suas críticas iam desde o frade até o papa se fosse necessário, demonstrando, desta maneira, sua veia crítica. Denunciou diversos acontecimentos, como a venda de indulgências e o exagero místico por parte dos religiosos (tanto dos clérigos como do público).
Outro importante fator que não se deve deixar passar desapercebidamente é que o autor não usa personagens como estamos todos acostumados – personagens com nomes e identidades muito bem demarcadas –, mas sim tipos, ou seja, faz uso de personagens que se enquadram em determinadas classes (gerando, com isso, crítica às classes sociais muito bem demarcadas à época – pobres e ricos).
A alegoria também é marca de Gil Vicente, não apenas com o uso de personagens que, metaforicamente, representam as classes/tipos de pessoas, mas pelo conjunto da obra. Em O Auto da Barca do Inferno, por exemplo, podemos perceber a alegoria por meio do enredo, no qual, a alegoria, é o Juízo Final. No aspecto mais particular do teatro, isto é, olhando as personagens, podemos ver as entidades que representam, como a Igreja, os valores sociais e culturais, entre outros aspectos.

Conclusão

Verifica-se, com o teatro de Gil Vicente, uma profunda mudança no ideário e nas visões existentes, que, neste momento, estão em conflito. Este conflito, muito bem trazido por Gil Vicente, gerará grandes e profundas reflexões acerca de diversas questões levantadas pelo autor (reflexões estas que, mais tarde, fortalecerão a visão antropocêntrica, que, a partir do Renascentismo, se perpetuará como visão-base de muitas culturas ao redor do mundo).

Bibliografia

Editora COC. (2009). Língua Portuguesa 3 - Literatura Colonial. Ribeirão Preto: COC.

Moisés, M. (2006). A Literatura Portuguesa (34ª ed. ed.). São Paulo: Cultrix.

Moisés, M. (1972). A Literatura Portuguesa Através dos Textos (5ª ed.). São Paulo: Cultrix.



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